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junho 20, 2011

Unhas.

Deitou mas não dormiu. Tanto arrependimento por ter cortado as unhas.. Mas elas estavam tão lindas, tão grandes e fortes. Como se arrependeu por ter cortado-as. Chorou de tão triste.

Mania feia essa que tinha. Mania de se vingar de si mesma, até pelo que nem era culpada. Mas se vingava. Cortando as unhas. E agora estava arrependida. Não pelas unhas, mas pela vida. Por ter ido até ali, mesmo sabendo aonde ali ia dar, desde o princípio. "Suspeitou desde o princípio".

Mas então teve uma surpresa: as unhas estavam crescendo de novo. Em poucos dias estariam do jeito que eram antes, e seriam fortes outra vez. Lembrou: o tempo não parou. Nem vai. Repetiu baixinho pra se convencer: nem vai.
V. Rodrigues

maio 08, 2011

Dry Martini

Já estava quase de saída quando a vi entrar. Vestido preto, cabelo liso, rosto doce. Ela era bonita, e eu resolvi ficar. Me aproximei do bar, porque é lá que as coisa realmente acontecem. Dry Martini, foi o que ela pediu. E eu achei ela tão interessante..

Tinha um jeito diferente de se portar. Postura reta, ombros alinhados. Modelo? Não, ela parecia algo mais.. sério? Tinha no olhar um brilho diferente.. Como alguém que esconde algo mais profundo, algo que seduz, que chama, que ameaça e provoca, mas que - acima de tudo - encanta. Segurou a taça com uma delicadeza que só alguém acostumado com aquilo tudo poderia ter. Virou de costas, apoiou-se no bar, e - tipicamente - pôs a azeitona na boca. Olhou pros lados, e tomou um gole. Esperando alguém? Um amigo, um namorado.. Ou estaria sozinha ali, sozinha como eu, procurando por alguma companhia?

Tudo era simples. Cinco passos e eu teria as minhas respostas. Profissão, idade, estado cívil. Mas algo nela me dizia que não era aquilo que eu iria querer. Paguei meu wisk e fui embora. Deusa ou pagã, anjo ou demônio, não saberei. Sei que ela era bonita, e que ficou em mim. Muito mais do que o sabor de um beijo, ou o cheiro de uma pele. Ficou em mim o mistério de tudo que ela poderia ser.  Quiz o mistério, e com o mistério fiquei. Além, é claro, de saber que ela gosta de Dry Martini. Ah, as mulheres! Sempre com bom gosto.
V. Rodrigues

abril 15, 2011

No fim.

Olhava pra ele, mas não o via de verdade. Via alguém que um dia ela amou. Um dia, não mais hoje. Mas por quê? Em que parte do caminho eles tinham se perdido? Não sabia. Sabia que já fora capaz de entregar toda a sua vida nas mãos dele, sabia que ele era tudo que ela sempre quis, sabia que nunca amara ninguém como o amara, mas se foi, o sentimento se foi. E isso a assustou.

Será que ele fazia ideia do quanto que aquilo tinha a afetado? Pouco provável. Mas aquela cicatriz demorou demais pra cicatrizar. Demorou tanto que virou algo feio, algo que não servia de recordação, pelo menos não uma boa recordação. Não servia porque ela ainda não tinha superado. E, na verdade, nem acreditava mais que fosse. Pelo menos não de um jeito que voltasse a fazer bem.

O amor tinha ido. Ido como se vai uma chuva de verão. Ido como se vão as folhas no outono, depois de um vento forte. E isso a fazia sofrer demais. De verdade, ela queria o amar, mas não podia mais.. Então partiu. Foi embora e não levou nada daquilo. Nenhum sorriso, nenhum abraço, nada que pudesse fazer sofrer. Foi embora e só deixou um rastro de que realmente existira:

"Eu realmente te amei. Disso, nunca duvide.
Mas até o amor às vezes cansa de existir, e vai embora.
Só tome um pouco mais de cuidado com o próximo coração que for seu.
Nem todos estão dispostos a sangrar até o fim."
V. Rodrigues

março 18, 2011

Mudança.

Pela janela do ônibus via as imagens passarem por ela. Borrões de uma vida que era deixada para trás. Olhou pro céu e viu que a noite não era de lua. "Hoje é a vez das estrelas brilharem", pensou, quase que em tom de revanche, quase como se aquilo lhe servisse também. E como elas brilhavam! O céu, de um azul-escuro perfeito - aquele que aparece nas primeiras horinhas do anoitecer - só era manchado, aqui e aculá, por um fiozinho de nuvem, daqueles que mais parecem fumaça. Do jeitinho que ela gostava.

Sentiu saudade. Saudade do que tinha deixado. Nada material, na verdade não era se quer algo sentimental. Sentiu saudade de quem era, e isso ameaçou fazê-la chorar, mas não chorou. Nunca gostou de choro. Achava feio, feio como achava a chuva. Coisa molhada, melosa. Gostava do sorriso, mesmo amargo, mas sorriso. Então sorriu.

Olhou em volta e se viu cercada de tantas vidas.. Será que uma delas se costuraria a dela, assim como dissera a Briza? Será que alguém estaria disposto a amar a nova pessoa que foi obrigada a surgir? Quem sabe, talvez.. "Pipoca, moça?", perguntou a menininha que estava ao seu lado. Sorriu um riso doce, como há tempos não sorria. Sentiu vontade de abraça-la, mas limitou-se a rejeitar e agradecer. Vai ver, no fim das contas, ela não estava tão diferente assim. E se estivesse, tudo bem, porque no fundo ela sabia: não importava o que ela foi, importava o que ela iria ser.
V. Rodrigues

março 10, 2011

Jogo(s).

Domingão. Sol escaldante, céu azuzinho que chega a dar gosto. Saem cedo pra não correr o risco de se atrasar. Centro, Pacaembu. Estádio lotado, torcida lotando o estádio, coração a mil. Apaixonados por futebol como são, não seriam capazes de escolher um lugar melhor pra passar a tarde.

Times em campo. Clássico: Corinthians e Palmeiras. Gaviões gritando a plenos pulmões. Que vibração! Se lhes perguntassem pra que saíram de casa naquele dia, responderiam sem pestanejar: "pra ver o Timão ganhar." Ai ai, tão inocentes somos nós humanos.

Gol! É aqui que o outro jogo começa. Calor da emoção, se abraçam. "Que pele macia", pensa ele. "Mas que pegada", pensa ela. Se olham melhor e, pimba! Parece que hoje alguém vai voltar pra casa sentindo algo mais que emoção.
V. Rodrigues

março 08, 2011

De volta.

Abrir aquela porta foi ainda mais difícil que fechá-la. O cheiro ainda era tão vivo que nem parecia ter se passado tanto tempo. Soubesse disso, teria demorado mais pra voltar. Olhou ao redor e viu que tudo ainda continuava no seu devido lugar, só que agora coberto por uma fina camada de poeira. "Sabia que devia ter pago alguém pra vir aqui de vez em quando". Irritou-se quando percebeu que cada lugar daquela casa estava impregnado com uma lembrança. De um sorriso, de um beijo, de um afago, de um amor que há muito já não brilhava por ali.

Largou a mala no chão, sentou-se na poltrona, e se perguntou porque diabos havia voltado. Não sabia, mas algum motivo deveria ter. Há algum tempo sentia seu coração pedindo por aquilo, pedindo por aquele lugar. Era como se o destino pedisse pra que voltasse, então voltou. Mas e agora que estava ali, faria o que? Sabia que não choraria mais. Não havia mais necessidade. Fosse lá o motivo pra aquilo tudo ter acontecido, aconteceu, e agora era passado. Mas se era passado, então porque o seu coração ainda sentia tanto aquele cheiro? Ele não podia estar mesmo ali, já fazia tanto tempo..

Descansou a cabeça na poltrona e fechou os olhos. Sentiu paz. Uma paz que há muito não sentia. Uma paz que era quase palpável, quase visível, quase brilhante. Sorriu um risindo de canto de boca e respirou profundo. Entendeu. Estava ali porque havia cansado de fugir do passado. Aquele amor nunca voltaria a ser o que era, mas isso não ia fazer com que ele deixasse de ser o que foi. Talvez - e muito provavelmente - nunca mais vivesse um amor como aquele, mas já estava mais do que na hora de voltar a viver. Abriu os olhos. O cheiro ainda continuava impregnado no ambiente, as lembranças ainda estavam por todo lugar, mas agora isso já não fazia mal. Voltou ao presente. Estava em casa novamente.
V. Rodrigues

março 05, 2011

Espera.

Um coração partido, uma maquiagem borrada e uma caneca de chá. Isso foi tudo que sobrou daquela noite fria de verão. Tudo que ela queria era que o tempo passasse, pra que ela pudesse logo se ver livre daquilo tudo, de todo aquele peso, de tudo aquilo que lhe travava a garganta. Mas o tempo era vilão, e se arrastava. 

Tentou dormir, mas não foi muito útil. Pensou em ligar e dizer pra ele que sabia de tudo, mas lhe faltou coragem e força pra manter a voz firme. Queria vencer. Queria ser gloriosa e fazê-lo sofrer. Ele merecia sofrer. Mas a verdade é que não iria, porque ela era fraca demais para isso. Então esperou.

Quando viu já não era mais noite, o nó na garganta já havia desatado e a vontade de vencer já havia se esgotado. Acalentou o coração, limpou o que sobrou da maquiagem, preparou mais chá - quentinho, pra espantar a solidão. Deitou-se como anjo que deita-se em redoma. Dormiu profundo, como criança cansada de tanta travessura. Soube esperar, e porque soube esperar, percebeu que o tempo passou. E se você quer saber, ela venceu. Ela venceu..
V. Rodrigues

março 03, 2011

Pago.

Com a luz apagada esse quarto me parece ainda mais sombrio. Em pensar que poucas horas atrás ele me parecia o lugar mais aconchegante de toda a cidade. Me ergo da cadeira e acendo a luz, tentando espantar um pouco a solidão. Vejo que meu estoque de cigarros está perigosamente reduzido, e que agora só tenho um único litro de wisk, pela metade. Olho pras chaves do carro, mas sinto preguiça de ir comprar mais. Preguiça, cansaço, vergonha, medo, não consigo se quer decifrar os sentimentos que sinto.

Um gosto horrível de desgosto na boca, misturado com um pouco de conhaque. Acho que estou bêbado. Ponho uma bala de menta na boca e o gosto me parece horrível. É, realmente estou bêbado. E ela, onde estará? Será que já está em outra cama? Será que já aquece um outro corpo? Muito provável. É sua profissão.

Não entendo como pude me apaixonar assim. Logo eu, que tão pouco me envolvo, me envolver justo com ela. Acho que foram aqueles olhos de gata que te comem vivo, ou talvez aquele jeito de andar, como se a rua fosse uma passarela. Também pode ter sido aquele sorriso, ou jeito como ela afasta o cabelo dos olhos quando eles caem. Não me importo de verdade. Apenas sinto, e enfim entendo o que as pessoas querem dizer quando falam que isso é simples.  Penso nela e me sinto bem novamente. Não me importa de quem ela seja nesse momento. Amanhã ela será minha mais uma vez, só minha. Afinal, um pouco de amor - mesmo que pago - não faz mal a ninguém.
V. Rodrigues

março 01, 2011

De gelo.

Acordou, mas não abriu os olhos. A noite passara tão rápido.. Queria muito ter mais uns instantes de sossego, então continuou com os olhos fechados, iludindo-se, achando que assim sua mente acharia que tudo ainda estava bem. Óbvio, não adiantou.

Abriu os olhos e viu que tinha acordado dez minutos mais cedo que o normal. Ficou feliz, ainda tinha dez minutos, e então, como que por reflexo, a mente vagou pra longe. Vagou pra outro universo. Um universo onde ela poderia fazer o que seu coração pedisse, onde ela poderia amá-lo sem vergonha, sem medo. Parecia ser um lugar tão bonito, parecia ser tão simples viver. Viver deveria ser simples, não? Não para ela. Esse peso que ela carregava, essa postura de rainha inabalável, essa coisa toda de ser superior, isso fazia tudo tão mais complexo que o normal. Em pensar que ela um dia já se orgulhara de ser assim. Como seria, talvez... Voltou. A música que a acordava toda manhã, aquela que não era a que ela realmente gostava, mas a que deveria gostar, começou a tocar. Sinal de que os dez minutos já haviam se esgotado. O dia começou.

Levantou-se e, como que num ritual, repetiu - talvez pela milésima vez - : Por que eu tive que me apaixonar por ele? Derramou a lágrima diária enquanto escovava os cabelos, olhou-se no espelho por um pequeno instante - o único em que ela realmente se via, - ergueu-se, vestiu sua armadura, e saiu. O dia não podia esperar.

V. Rodrigues